Enamed expõe quase 14 mil formandos sem base para exercer medicina, diz presidente do CFM
Fonte: Folha de S.Paulo - Em cima da hora - Principal - Imagem Meramente Ilustrativa.
Quase 14 mil médicos formados em 2025 saíram de faculdades com notas 1 e 2 no Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica). Leia mais (01/19/2026 - 20h21)
Resultados do Enamed Revelam Fragilidades na Formação Médica no Brasil
A primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), aplicada em 2025 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em parceria com a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), trouxe à tona dados que acendem sinais de alerta sobre a qualidade da formação de profissionais de medicina no Brasil. O exame, que passou a substituir e ampliar o antigo Enade para o curso de Medicina, tem por objetivo medir se os concluintes da graduação adquiriram as competências mínimas exigidas pelo currículo médico nacional e, além disso, poderá influenciar o ingresso em programas de residência.
Segundo os resultados divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), quase um terço dos cursos de medicina avaliados (aproximadamente 30%) tiveram desempenho considerado insatisfatório, ou seja, obtiveram conceito 1 ou 2 na escala que vai de 1 a 5 — faixas nas quais menos de 60% dos concluintes demonstraram proficiência mínima na prova. Isso significa que 13.871 graduandos de medicina que concluíram seus cursos em 2025 saíram de instituições que não alcançaram o nível mínimo de proficiência exigido, de acordo com o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), José Hiran Gallo. Para ele, esse número é um “sinal preocupante” que coloca em risco a segurança e a saúde de milhões de brasileiros.
A análise por tipo de instituição revela que grande parte dos cursos com notas baixas está no setor privado. Das 24 faculdades de medicina que receberam a nota 1, 17 são particulares, e das 83 com conceito 2, 72 também pertencem à iniciativa privada. Esses dados levam a uma reflexão sobre a expansão acelerada de cursos de medicina no país, especialmente nas últimas duas décadas, e a possibilidade de que essa expansão não tenha sido acompanhada por investimentos adequados em infraestrutura, corpo docente e campos de prática clínica.
O resultado do Enamed não apenas expõe desigualdades na qualidade de formação médica, mas também abriu um amplo debate sobre a necessidade de mecanismos de avaliação mais rígidos e transparentes. O CFM defende a criação de um exame de proficiência profissional — nos moldes do que já existe na área jurídica com o exame da OAB — que seria obrigatório para a emissão do registro profissional aos médicos. Um projeto de lei com essa proposta foi recentemente aprovado em uma comissão do Senado Federal.
Por outro lado, o Ministério da Saúde e o MEC têm enfatizado a importância do Enamed como ferramenta de diagnóstico para orientar políticas públicas e ações de supervisão. O governo anunciou que cursos com desempenho insatisfatório poderão sofrer penalizações que incluem restrições no recebimento de financiamento estudantil (Fies), suspensão de vagas ou impedimento de abertura de novas turmas — medidas que buscam pressionar as instituições a elevarem seus padrões educacionais.
Especialistas em educação médica observam que, embora o Enamed represente um avanço significativo no monitoramento da qualidade de formação, ele é apenas um dos elementos de um sistema de avaliação mais amplo que ainda precisa de aperfeiçoamento. A aplicação anual em diferentes fases da graduação e a integração com outros critérios, como avaliação de estágios e competências práticas, são apontadas como caminhos para uma avaliação mais completa do preparo dos futuros médicos.
O impacto desses resultados vai além da sala de aula. Para a população brasileira, especialmente no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), há preocupações sobre a qualificação dos profissionais que estarão atuando em contextos clínicos complexos. A discrepância entre a formação que os novos médicos receberam e as exigências reais da prática profissional gera um debate sobre a segurança do paciente e a eficácia da formação médica como um todo.
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