18/04/2026

Vorcaro já usava ciranda financeira ao comprar banco que virou o Master, mostra BC

Vorcaro já usava ciranda financeira ao comprar banco que virou o Master, mostra BC

Documentos do Banco Central revelam indícios de "ciranda financeira" na origem do Banco Master

Um relatório técnico do Banco Central do Brasil (BC), datado de fevereiro de 2019, aponta que o empresário Daniel Vorcaro teria utilizado mecanismos de circulação de recursos entre empresas de seu próprio grupo para viabilizar a aquisição do Banco Máxima — instituição que, após passar por uma reestruturação profunda, deu origem ao atual Banco Master. O documento, que na época propôs o veto à operação de compra, descreve o uso de uma "ciranda financeira", estratégia que consiste na movimentação de capital entre entidades sob o mesmo controle societário para simular um aporte de recursos externos que, na prática, não teria ocorrido. A revelação traz novos elementos às investigações em curso sobre as práticas contábeis e a governança da instituição financeira.

O mecanismo da circularidade e o veto técnico

A análise técnica do Banco Central detalha que a tentativa de aquisição do Banco Máxima por Vorcaro não contou com a entrada genuína de capital novo, mas sim com uma triangulação de valores. Segundo o corpo técnico da autoridade monetária, os recursos utilizados para a capitalização da instituição circulavam por empresas ligadas ao próprio controlador antes de serem injetados no banco. Esse procedimento é monitorado com rigor pelos órgãos reguladores, pois compromete a solvência real da instituição e a transparência sobre a origem e a robustez do patrimônio líquido do banco.

Em fevereiro de 2019, os técnicos do BC foram enfáticos ao propor o veto à operação. O argumento central residia na fragilidade da estrutura de capital apresentada, que não atendia aos requisitos de "recursos próprios e livres" exigidos para a assunção do controle de uma instituição financeira. Para os analistas, a manobra configurava um embrião do que viria a ser um esquema de ciranda financeira mais complexo, dificultando a rastreabilidade do dinheiro e inflando artificialmente os balanços institucionais.

A evolução da estrutura e os desdobramentos regulatórios

Apesar do parecer técnico desfavorável em 2019, a operação de controle foi eventualmente consolidada, e o Banco Máxima passou por uma transição de marca e modelo de negócios, tornando-se o Banco Master. A instituição registrou, nos anos seguintes, um crescimento exponencial em seus ativos e uma expansão agressiva no mercado de crédito e investimentos. Contudo, a descoberta desse documento histórico do Banco Central coloca em xeque a base sobre a qual essa expansão foi construída, sugerindo que as práticas sob investigação atual podem ter raízes no momento da aquisição da licença bancária.

No setor bancário, a "circularidade de recursos" é vista como um risco sistêmico. Quando um controlador utiliza dívidas ou recursos de outras empresas do grupo para capitalizar um banco, ele cria uma interdependência perigosa: se uma das pontas do grupo empresarial enfrentar dificuldades financeiras, o banco — que deveria ser o garantidor da liquidez — pode colapsar por não possuir reservas reais e independentes. O Banco Central, procurado para comentar o documento de 2019, mantém o protocolo de não se manifestar sobre processos administrativos específicos e sigilosos, mas reforça que a fiscalização das instituições financeiras é contínua e baseada em critérios de prudência.

Implicações para o mercado e governança corporativa

O ressurgimento desses documentos impõe um desafio reputacional e operacional ao Banco Master. O mercado financeiro, pautado pela confiança e pela clareza de dados, tende a reagir com cautela a indícios de fragilidade na origem do capital. A análise técnica do BC levanta questões sobre como a instituição logrou superar as resistências iniciais do corpo técnico da autoridade monetária para obter as aprovações necessárias nos anos subsequentes.

Do ponto de vista da governança, o caso sublinha a importância de uma separação rígida entre o patrimônio do controlador e o capital social da instituição bancária. Especialistas em direito bancário apontam que a reiteração de práticas de circularidade pode levar a sanções administrativas severas, que variam de multas vultosas à cassação da licença de operação, caso fique comprovado que a estrutura de capital foi forjada para ludibriar o regulador.

A conclusão das investigações atuais deverá determinar se as práticas apontadas em 2019 foram corrigidas durante a transformação do Máxima em Master ou se elas se tornaram a fundação de um modelo de negócios que prioriza o crescimento acelerado em detrimento da estabilidade regulatória. Para o sistema financeiro nacional, o desfecho deste caso servirá como um termômetro da capacidade do Banco Central em identificar e coibir manobras de engenharia financeira que possam comprometer a integridade do mercado.



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