Justiça decreta prisão de médico investigado por negligência fatal e crimes sexuais na Amazônia
Uma ação conjunta entre as Polícias Civis do Pará e do Amazonas culminou, na última quinta-feira (16), na prisão preventiva de um médico suspeito de uma série de crimes graves cometidos em unidades de saúde da região Norte. A detenção, ocorrida em Manaus (AM) no âmbito da Operação “Escudo Feminino”, revela um extenso histórico de supostas irregularidades que variam de negligência médica fatal a crimes de violência sexual contra pacientes. O mandado de prisão foi expedido pela Vara Única da Comarca de Terra Santa, no oeste do Pará, onde o profissional é o centro de um inquérito que apura a morte de um paciente após erro cirúrgico.
As investigações conduzidas pela Polícia Civil apontam que a atuação do médico era marcada por um padrão recorrente de condutas criminosas. O caso de maior impacto técnico-pericial envolve a morte de um paciente em Terra Santa, submetido a uma cirurgia na qual, segundo os autos, uma gaze teria sido esquecida dentro de seu intestino. O episódio, tratado pelas autoridades como possível homicídio culposo — quando não há intenção de matar, mas há negligência ou imperícia —, é um dos pilares que sustentam o pedido de custódia cautelar, dada a gravidade da falha nos protocolos médicos fundamentais.
Padrão de negligência e suposta falsificação de documentos
O histórico do investigado, no entanto, estende-se para além do erro cirúrgico em Terra Santa. Em 2024, outra ocorrência em ambiente hospitalar somou-se ao dossiê contra o profissional: a morte de uma gestante após a administração de doses elevadas de medicamentos destinados à indução do parto. De acordo com os relatórios médicos analisados pela investigação, a paciente sofreu sucessivas paradas cardíacas antes de vir a óbito.
Além da suspeita de imperícia na condução do parto, a polícia investiga a possível falsificação de documentos públicos. Há indícios de que o atestado de óbito da gestante tenha sido adulterado para omitir as reais causas da morte e as circunstâncias do atendimento. Este desdobramento sugere uma tentativa de obstrução da verdade biológica e jurídica, o que eleva a complexidade do caso para a esfera da falsidade ideológica. O médico já responde a outras duas ações penais por homicídio culposo, evidenciando uma reincidência que preocupa as autoridades sanitárias e judiciárias da região.
Acusações de abusos e a Operação Escudo Feminino
A prisão do médico também é fundamentada em graves denúncias de crimes sexuais. Aproveitando-se da vulnerabilidade de pacientes sob seus cuidados e da posição de autoridade técnica, o suspeito teria cometido abusos e importunação sexual dentro de hospitais. Entre as vítimas identificadas, consta uma adolescente de iniciais N.D.A., que teria sido abusada durante um atendimento em Terra Santa. Em Juruti, município vizinho, outra paciente formalizou denúncia de importunação sexual ocorrida no hospital municipal, caso que gerou forte mobilização social na época.
A inserção da prisão na Operação “Escudo Feminino” sublinha o esforço institucional para reprimir crimes de gênero e violência contra a mulher. O investigado já possuía um mandado de prisão em aberto expedido pela Comarca de Juruá, no Amazonas, também pelo crime de importunação sexual. A captura em Manaus foi o resultado de um monitoramento de inteligência que buscou encerrar o que a polícia descreve como um ciclo de impunidade, onde o profissional utilizava a mobilidade entre cidades do interior para continuar exercendo a medicina enquanto acumulava processos judiciais.
Implicações jurídicas e o exercício da medicina
O desfecho deste caso traz à tona o debate sobre a fiscalização do exercício profissional em regiões remotas do Brasil, onde a escassez de médicos muitas vezes dificulta o afastamento imediato de profissionais sob investigação. Juridicamente, o suspeito permanece à disposição da Justiça do Pará, e a continuidade das investigações visa identificar se há outras vítimas que, por temor ou falta de acesso aos canais de denúncia, ainda não relataram episódios semelhantes.
A defesa do médico terá o direito constitucional ao contraditório, mas a robustez do conjunto probatório — que une laudos periciais, depoimentos de vítimas e ordens judiciais de duas unidades da federação — coloca o profissional em uma situação de isolamento jurídico. O Conselho Regional de Medicina (CRM) deve ser oficiado para instaurar processos administrativos que podem levar à cassação definitiva do registro profissional. O caso agora segue para a fase de instrução processual, onde a Justiça analisará se a somatória de negligência médica e crimes sexuais configura uma periculosidade social que justifique a manutenção da prisão até o julgamento final.
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