Peru vive impasse eleitoral sob margem estreita e cenário de profunda fragmentação política
LIMA — O Peru atravessa um dos momentos mais tensos de sua história democrática recente enquanto aguarda a finalização da apuração do segundo turno das eleições presidenciais. Neste sábado (13), a apuração conduzida pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) aponta um ligeiro distanciamento de Keiko Fujimori, do partido Força Popular, em relação a Roberto Sánchez, da coalizão de esquerda Juntos pelo Peru. Com 98,46% das urnas processadas, a candidata da direita detém 50,03% dos votos válidos contra 49,96% de seu opositor. A diferença, que flutua na casa de 12 mil votos, ilustra uma nação dividida entre dois projetos antagônicos e mergulhada em um ceticismo institucional sem precedentes.
O processo de contagem, iniciado após o fechamento das urnas no último domingo (7), tem sido marcado por reviravoltas que testam os nervos do eleitorado peruano. No estágio inicial da apuração, Fujimori chegou a abrir uma vantagem de cinco pontos percentuais. Contudo, a tendência foi revertida conforme o processamento dos votos provenientes de áreas rurais e do interior do país avançava. Na tarde de segunda-feira (8), Sánchez assumiu a liderança momentânea, sendo ultrapassado novamente por Fujimori na noite de quarta-feira (10). A atual vantagem da candidata do Força Popular é sustentada, em grande parte, pelo voto no exterior, onde ela registra 63,39% de preferência, contra 36,60% do representante da esquerda.
A anatomia do escrutínio e o peso do voto rural
A complexidade da apuração peruana reside não apenas na polarização política, mas também nas dificuldades logísticas inerentes ao sistema de cédulas de papel. Embora a contagem em território nacional esteja em estágio avançado, regiões como Ayacucho, Cusco, Loreto, Madre de Dios e Ucayali ainda possuem votos pendentes. Historicamente, essas zonas rurais e de fronteira representam a base de apoio mais sólida de Roberto Sánchez, cujas propostas de reforma estrutural encontram eco em populações frequentemente marginalizadas pelas políticas centralizadas em Lima.
Por outro lado, o desempenho de Keiko Fujimori nas zonas urbanas e entre a diáspora peruana tem atuado como um contrapeso decisivo. Dos 27,33 milhões de eleitores aptos, uma parcela significativa reside fora do país, e o processamento de 94,57% dessas urnas estrangeiras tem sido o pilar da resiliência de Fujimori nesta reta final. A autoridade eleitoral já alertou que o resultado definitivo pode levar dias para ser proclamado. Isso ocorre porque, além da contagem física, uma porcentagem dos votos — cerca de 1,67% do total — está sob análise da Justiça Eleitoral devido a impugnações ou inconsistências nas atas, o que pode ser determinante em uma disputa decidida por décimos.
Crise de representatividade e o desafio da governabilidade
Para além dos nomes de Fujimori e Sánchez, o pleito de 2026 ocorre sob a sombra de uma crise institucional severa. O histórico recente do Peru é de instabilidade aguda: o país teve nove presidentes em apenas dez anos, um reflexo de conflitos permanentes entre o Executivo e o Legislativo. O primeiro turno desta eleição, que contou com um recorde de 35 candidatos, já sinalizava a fragmentação do sistema partidário. Keiko Fujimori, em sua quarta tentativa de chegar à presidência após derrotas em 2011, 2016 e 2021, carrega o legado e os questionamentos associados ao governo de seu pai, Alberto Fujimori. Já Roberto Sánchez, deputado e psicólogo, surge como a face de uma esquerda que busca canais de expressão fora do "establishment" tradicional.
Dados coletados por institutos de pesquisa durante o processo eleitoral revelam um cenário alarmante para qualquer um que venha a assumir o Palácio de Pizarro. Cerca de 90% dos peruanos manifestam pouca ou nenhuma confiança no governo e no Congresso Nacional. Mais grave ainda é o índice de satisfação com a própria democracia, que atinge apenas 10% da população. Especialistas classificam o fenômeno como uma "desconfiança crônica", onde o ato de votar parece ser mais um exercício de rejeição ao adversário do que uma adesão convicta a um programa de governo.
As implicações para o futuro próximo são complexas. O vencedor herdará um país onde a legitimidade política está desgastada e a fragmentação parlamentar exigirá coalizões difíceis em um ambiente de hostilidade ideológica. Se a tendência atual se mantiver e Keiko Fujimori for confirmada vencedora, ela terá o desafio imediato de pacificar as regiões rurais que votaram massivamente em Sánchez. Caso Sánchez consiga reverter a vantagem nos votos residuais, enfrentará a resistência dos setores produtivos urbanos e de um mercado financeiro tradicionalmente cauteloso com sua plataforma. Em ambos os casos, a margem estreita de vitória sugere que o próximo mandato começará sob o signo da vigilância e da pressão por reformas que devolvam ao cidadão a crença nas instituições democráticas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário