23/04/2026

Governo envia ao Congresso projeto que permite usar receita extra de petróleo para reduzir impostos sobre combustíveis

Governo envia ao Congresso projeto que permite usar receita extra de petróleo para reduzir impostos sobre combustíveis

Governo propõe uso de excedente do petróleo para amortecer preços de combustíveis ante escalada no Oriente Médio

O governo federal protocolou na Câmara dos Deputados, nesta quinta-feira (23), um projeto de lei complementar que estabelece um mecanismo de compensação tributária para conter a volatilidade dos preços dos combustíveis no mercado interno. A proposta permite que o Poder Executivo converta aumentos extraordinários na arrecadação decorrentes da exploração de petróleo em reduções proporcionais de tributos federais sobre diesel, gasolina, etanol e biodiesel. A medida surge como uma resposta estratégica à instabilidade geopolítica no Oriente Médio, que tem pressionado as cotações internacionais do barril de petróleo e ameaçado a estabilidade inflacionária brasileira.

A engenharia financeira proposta fundamenta-se na condição do Brasil como produtor e exportador de óleo bruto. Segundo a tese defendida pela equipe econômica, a valorização do petróleo no mercado global gera um incremento automático nas receitas públicas via royalties, participações especiais e dividendos da Petrobras. O projeto de lei visa, portanto, criar um lastro legal para que esse "excedente de arrecadação" seja devolvido à sociedade na forma de desoneração fiscal nas bombas, preservando o equilíbrio das contas públicas.

Engenharia fiscal e o princípio da neutralidade

O secretário do Ministério do Planejamento, Bruno Moretti, detalhou que a aplicação do mecanismo será balizada pelo princípio da neutralidade fiscal. Na prática, o governo só poderá editar decretos reduzindo alíquotas de tributos como PIS/Cofins e CIDE-Gasolina se houver a comprovação técnica de que a arrecadação extraordinária com o setor de óleo e gás cobre integralmente a renúncia fiscal. "O limite é a receita extraordinária apurada. A neutralidade fiscal dessas medidas estará sempre assegurada", afirmou Moretti.

O projeto especifica cinco fontes de recursos que poderão financiar essas reduções: royalties e participações especiais da União; receitas provenientes da comercialização do petróleo e gás natural pertencentes ao Estado; arrecadação de IRPJ e CSLL das empresas do setor de hidrocarbonetos; dividendos pagos pela União por companhias petrolíferas; e o montante advindo do Imposto de Exportação de 12% sobre o petróleo bruto.

De acordo com o Ministério da Fazenda, a implementação inicial deve focar na manutenção da desoneração do diesel, cuja medida atual tem validade de apenas dois meses. Para a gasolina e o etanol, o governo planeja reduções parciais que serão avaliadas conforme a flutuação dos preços internacionais e o volume de arrecadação adicional captado. Estimativas técnicas indicam que, para cada 10 centavos reduzidos nos tributos sobre a gasolina, o impacto fiscal é de aproximadamente R$ 800 milhões em um bimestre.

Blindagem econômica e articulação política

A proposta integra um pacote mais amplo de medidas, orçado em R$ 30,5 bilhões, que visa blindar setores produtivos sensíveis, com destaque para o agronegócio e o transporte de cargas. O óleo diesel, motor da logística nacional, recebeu atenção prioritária: o governo desenhou uma subvenção que permite um desconto de R$ 1,20 por litro no produto importado e no nacional. Para viabilizar a medida sem sobrecarregar exclusivamente o Tesouro Nacional, o custo será dividido com os estados, utilizando recursos retidos do Fundo de Participação dos Estados (FPE).

No setor aéreo, o querosene de aviação (QAV) terá o PIS/Cofins zerado até o fim do ano para evitar reajustes de até 20% nas passagens. Para compensar essa renúncia específica e a isenção sobre o biodiesel, o governo anunciou o aumento da tributação sobre o setor de tabaco, elevando a alíquota dos cigarros para 3,5% e reajustando o preço mínimo do maço para R$ 7,50.

A viabilidade política do projeto parece avançar em território favorável. Após reuniões com as cúpulas da Câmara e do Senado, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, relatou uma recepção positiva às medidas. O presidente da Câmara, Hugo Motta, deve pautar o debate com os líderes partidários na próxima terça-feira, buscando uma "unidade ampla" para a aprovação célere da matéria, dada a urgência imposta pelo cenário externo.

As implicações futuras deste projeto sugerem uma mudança estrutural na forma como o Estado brasileiro lida com choques de oferta de commodities. Ao vincular a renúncia fiscal diretamente ao lucro extraordinário do setor extrativista, o governo tenta criar um estabilizador automático que minimize a necessidade de intervenções diretas na política de preços da Petrobras. Contudo, a eficácia do modelo dependerá da precisão das projeções de arrecadação e da agilidade do Executivo em ajustar as alíquotas via decreto, em um cenário onde o conflito no Oriente Médio permanece como uma variável de alta incerteza e baixa previsibilidade.



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