24/04/2026

Com queda do dólar, gastos de brasileiros no exterior batem recorde no 1º trimestre

Com queda do dólar, gastos de brasileiros no exterior batem recorde no 1º trimestre

Apetite por viagens e queda do dólar elevam gastos de brasileiros no exterior a recorde histórico no primeiro trimestre

O fortalecimento do real frente à moeda norte-americana e a resiliência da atividade econômica doméstica impulsionaram as despesas de brasileiros no exterior para patamares inéditos no início de 2026. Segundo dados consolidados pelo Banco Central (BC) e divulgados nesta sexta-feira (24), os gastos de turistas e residentes do Brasil fora do país somaram US$ 6,04 bilhões nos três primeiros meses do ano. O montante representa uma expansão de 21,9% em comparação ao mesmo período de 2025, consolidando-se como o maior valor para um primeiro trimestre desde o início da série histórica da autoridade monetária, iniciada em 1995.

Apenas no mês de março, as despesas internacionais totalizaram US$ 1,99 bilhão, estabelecendo também um recorde mensal para o período. O fenômeno é reflexo direto de uma conjuntura macroeconômica que combina a valorização cambial com a manutenção do poder de consumo das classes de renda média e alta. Embora o dólar tenha apresentado uma valorização pontual de 0,58% na última quinta-feira, encerrando o dia cotado a R$ 5, a moeda acumula uma desvalorização de 8,85% ao longo do ano, facilitando o planejamento de viagens e o consumo de bens e serviços em moeda estrangeira.

Geopolítica e câmbio: os motores do consumo externo

A retração do dólar frente ao real encontra explicação em um cenário geopolítico complexo. Analistas de mercado apontam que a instabilidade no Oriente Médio tem gerado um impacto assimétrico nas economias globais, do qual o Brasil tem emergido com certa vantagem competitiva. Na condição de exportador líquido de petróleo, o país beneficia-se da alta nos preços das commodities energéticas, o que favorece o ingresso massivo de divisas e a consequente valorização da moeda nacional.

A redução do custo cambial atua de forma transversal na cadeia do turismo e do comércio. Itens como passagens aéreas, reservas de hotelaria e despesas cotidianas em outros países tornam-se sensivelmente mais acessíveis quando convertidos para a moeda brasileira. De acordo com o Banco Central, essa dinâmica é retroalimentada pela continuidade do crescimento econômico no Brasil. Mesmo sob um ritmo de desaceleração controlada, a atividade econômica doméstica sustenta a demanda por serviços internacionais, reforçando o fluxo de saída de capital sob a forma de consumo.

Especialistas observam que a série histórica revela uma correlação estreita entre a estabilidade do real e o volume de transações de serviços. Quando o câmbio se mantém em patamares previsíveis ou descendentes, o consumidor brasileiro tende a transferir parte de sua demanda interna para o mercado global, buscando opções de lazer e produtos que ganham competitividade em relação ao mercado nacional.

Ajuste nas contas externas e o papel do investimento direto

Paralelamente ao aumento dos gastos no exterior, o balanço de pagamentos do Brasil apresentou sinais de ajuste. O déficit nas contas externas, que reflete a diferença entre o que o país gasta e o que recebe em transações internacionais, registrou uma queda de 10,76% no primeiro trimestre. O saldo negativo nas transações correntes — que engloba a balança comercial, serviços e rendas — situou-se em US$ 20,27 bilhões, ante um rombo de US$ 22,71 bilhões registrado no primeiro trimestre do ano anterior.

O Banco Central atribui essa melhora parcial ao comportamento da balança comercial e à desaceleração marginal da economia. Em termos técnicos, um país em crescimento tende a importar mais produtos e serviços; todavia, a atual conjuntura permitiu que, mesmo com o aumento expressivo nos gastos de viagens, outros componentes das contas externas garantissem uma redução no déficit total.

No campo dos investimentos, o relatório do BC apontou um recuo moderado no Investimento Direto no País (IDP). Entre janeiro e março de 2026, o Brasil captou US$ 21,03 bilhões, valor inferior aos US$ 23,04 bilhões aportados no mesmo período do ano passado. Apesar da queda, o volume de capital estrangeiro direcionado ao setor produtivo permanece em nível considerado saudável pela autoridade monetária, sendo suficiente para financiar integralmente o déficit em transações correntes acumulado no início do ano.

Perspectivas e riscos no horizonte econômico

Para os próximos trimestres, a sustentabilidade deste recorde de gastos dependerá da manutenção do equilíbrio entre a política monetária doméstica e as tensões internacionais. O Banco Central mantém o monitoramento sobre o impacto do setor externo no Produto Interno Bruto (PIB), uma vez que o aumento do déficit na conta de serviços (onde se inserem as viagens internacionais) pode pressionar a balança de pagamentos caso o fluxo de investimentos diretos ou o superávit comercial percam fôlego.

O cenário futuro aponta para uma vigilância contínua sobre a cotação do petróleo e a taxa de juros nos Estados Unidos, fatores que podem inverter a trajetória de queda do dólar. No momento, contudo, os dados oficiais confirmam que o brasileiro aproveita uma janela de oportunidade cambial para intensificar sua presença global, elevando o patamar de gastos internacionais a níveis nunca antes registrados na economia moderna do país.



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