22/04/2026

Após barrar Comissão contra saúde municipal, Câmara de Sorocaba abre CPI para investigar hospital estadual

Após barrar Comissão contra saúde municipal, Câmara de Sorocaba abre CPI para investigar hospital estadual

Crise na saúde em Sorocaba: Câmara instaura CPI de hospital estadual sob sombra de blindagem política ao Executivo

A Câmara Municipal de Sorocaba aprovou, nesta quarta-feira (22), a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar denúncias de negligência médica, mortes suspeitas e precariedade estrutural no Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS). A decisão, consolidada por 11 assinaturas, ocorre em um cenário de intensa movimentação política: o Legislativo local optou por escrutinar um equipamento sob gestão do governo do Estado de São Paulo apenas dois meses após arquivar pedidos de investigação contra a administração do prefeito Rodrigo Manga (Republicanos) na área da saúde municipal.

A comissão terá um prazo inicial de 90 dias para apurar o que parlamentares e órgãos de fiscalização classificam como um colapso iminente na unidade. O foco das investigações está centrado em três eixos fundamentais: a ocorrência de óbitos sob circunstâncias suspeitas, a superlotação crônica aliada ao uso inadequado de leitos e os atrasos sistemáticos em cirurgias eletivas e de urgência, fatores que teriam agravado o quadro clínico de inúmeros pacientes da região.

Dossiê de evidências e gravidade das denúncias

O motor da instalação desta CPI foi um dossiê de 40 páginas apresentado pelo vereador Ítalo Moreira (Missão). O documento é o resultado de uma audiência pública realizada em abril e compila um inventário de irregularidades que vão desde falhas administrativas até episódios de insalubridade extrema. Entre os relatos documentados, constam registros fotográficos de larvas em alas de internação — fato que levou ao fechamento temporário de setores para higienização — e depoimentos de profissionais de saúde sobre a escassez de médicos, especialmente na maternidade.

Um dos casos de maior repercussão citados no documento é a morte de um recém-nascido após o parto, ocorrida em fevereiro. A família alega falha no atendimento, o que gerou um boletim de ocorrência e impulsionou a pressão popular sobre o Legislativo. Além disso, o dossiê detalha a agonia de acompanhantes que denunciam condições degradantes nas dependências do hospital, que serve como unidade de referência para 48 municípios da região.

A robustez das provas apresentadas convenceu um grupo heterogêneo de parlamentares. Assinaram o requerimento vereadores de oposição, como Fernanda Garcia (PSOL) e Iara Bernardi (PT), mas também parlamentares da base aliada ou de partidos moderados, incluindo Silvano Júnior e Jussara Fernandes, ambos do Republicanos, mesmo partido do prefeito.

Contradições políticas e o limite da jurisdição

A celeridade na abertura da CPI do CHS contrasta com o recente histórico da Casa em relação à saúde pública municipal. Há apenas dois meses, a Câmara de Sorocaba rejeitou a abertura de duas Comissões Processantes (CPs) contra o prefeito Rodrigo Manga. O chefe do Executivo é alvo de investigações sobre supostos desvios de verbas e irregularidades em contratos de gestão na rede própria do município. O arquivamento desses pedidos gerou críticas de setores da sociedade civil, que veem na atual CPI do CHS uma tentativa de deslocar o foco das crises da prefeitura para a esfera estadual.

Entretanto, a eficácia da nova CPI enfrenta um obstáculo jurídico: o limite de competência legislativa. Por ser uma instituição vinculada à Secretaria de Estado da Saúde (SES) e gerida pela organização social Seconci, o CHS não está sob a hierarquia direta da Câmara Municipal. Tecnicamente, os vereadores não possuem prerrogativa legal para afastar diretores ou punir gestores estaduais.

A função da comissão será, portanto, de caráter investigativo e documental. O relatório final deverá ser encaminhado ao Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) e à Assembleia Legislativa (Alesp), instâncias que detêm o poder de sanção administrativa e criminal sobre o governo estadual e a organização social gestora.

Implicações institucionais e o futuro da assistência

Em resposta institucional, a Secretaria de Estado da Saúde informou que o Conjunto Hospitalar de Sorocaba passa por fiscalizações regulares e que a pasta mantém total disponibilidade para prestar esclarecimentos ao Legislativo. A nota oficial destacou ainda que a Seconci foi notificada para adotar "providências imediatas" diante das falhas apontadas no dossiê.

Analistas políticos e especialistas em direito público observam que, embora limitada em seu poder punitivo, a CPI tem o potencial de elevar a temperatura política no estado e forçar uma intervenção direta do governo de São Paulo na unidade. O desfecho dos trabalhos, previsto para o segundo semestre, servirá como um teste para a capacidade de articulação da Câmara frente ao governo estadual e como um indicativo da transparência na gestão das Organizações Sociais de Saúde (OSS), modelo que tem sido alvo de intensos debates sobre eficiência e controle de gastos públicos em todo o Brasil.



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