22/03/2026

Sem citar Trump, premiê da China critica unilateralismo e promete ampliar abertura econômica

Sem citar Trump, premiê da China critica unilateralismo e promete ampliar abertura econômica

Pequim sinaliza abertura econômica e defende multilateralismo sob sombra de superávit recorde e tensões globais

Em um momento de crescente isolacionismo nas potências ocidentais e de volatilidade geopolítica acentuada, o primeiro-ministro da China, Li Qiang, utilizou a abertura do Fórum de Desenvolvimento da China, em Pequim, para reafirmar o compromisso do país com a globalização e a expansão do acesso de empresas estrangeiras ao mercado doméstico. O discurso, proferido no último domingo perante uma plateia de executivos globais e economistas, ocorreu sem menções diretas ao presidente norte-americano, Donald Trump, mas foi marcado por críticas implícitas ao unilateralismo e por promessas de reduzir os desequilíbrios comerciais que têm gerado atritos com Washington e Bruxelas.

O movimento de Pequim ocorre em um cenário de dualidade econômica. Se, por um lado, a China registrou um superávit comercial histórico de US$ 1,2 trilhão em 2025, por outro, enfrenta uma retração persistente no Investimento Estrangeiro Direto (IED). Segundo dados oficiais, o IED caiu 9,5% ao longo do último ano e recuou outros 5,7% em janeiro de 2026, totalizando cerca de US$ 13,36 bilhões no período. Para reverter esse quadro, Li prometeu que as empresas estrangeiras passarão a ter tratamento equivalente às nacionais, visando restaurar a confiança de investidores preocupados com a sobrecapacidade industrial chinesa e com a segurança jurídica em setores estratégicos.

A matemática do desequilíbrio e a defesa monetária

A estratégia de comunicação de Pequim foi reforçada pelo presidente do Banco Popular da China (PBOC), Pan Gongsheng, que buscou desmistificar as críticas sobre o superávit recorde. Em uma análise técnica distribuída pelo banco central, Pan argumentou que os desequilíbrios globais não devem ser lidos apenas sob a ótica da troca de bens. Segundo o dirigente, embora a China detenha o maior superávit mundial em mercadorias, o país carrega simultaneamente o maior déficit no comércio de serviços, o que equilibraria parcialmente a conta corrente.

Pan Gongsheng também foi enfático ao abordar a questão cambial, assegurando que o governo chinês não tem a intenção de desvalorizar o iuan para obter vantagens competitivas artificiais. A declaração é vista como um aceno de estabilidade em um momento de trégua frágil com os Estados Unidos. As tensões bilaterais deveriam ter sido discutidas em uma cúpula na semana passada, mas o presidente Donald Trump adiou sua viagem a Pequim citando o agravamento do conflito militar no Irã, o que postergou o diálogo direto entre as duas maiores potências econômicas sobre a redução das tarifas e barreiras comerciais.

A preocupação com a imagem da China como parceiro comercial equitativo permeou todo o evento. Li Qiang ressaltou que o país pretende importar mais produtos de alta qualidade, buscando um fluxo comercial mais "balanceado". O premiê sugeriu que o modelo de crescimento chinês está em transição, visando absorver tecnologias globais enquanto tenta dissipar os receios de países que se sentem inundados por produtos chineses subsidiados, especialmente nos setores de transição energética e manufatura pesada.

Incentivos estruturais e proteção à propriedade intelectual

Para além da retórica diplomática, o governo chinês detalhou medidas práticas para atrair capitais internacionais. Em dezembro, Pequim incluiu 200 setores em uma lista de incentivos que abrangem desde isenções fiscais até condições preferenciais de uso de solo. O foco está claramente direcionado para a manufatura avançada, economia verde e alta tecnologia — áreas em que a China busca manter a liderança global, mas que exigem a manutenção de cadeias de suprimentos integradas e cooperação externa.

Nessa frente, o ministro do Comércio, Wang Wentao, realizou reuniões paralelas com líderes da indústria farmacêutica global. Na pauta, o compromisso de reforçar a proteção à propriedade intelectual e aumentar a transparência regulatória, temas que historicamente figuram no topo das reclamações de multinacionais operando no país. A promessa de "igualdade de tratamento" entre firmas locais e estrangeiras é a peça-chave dessa nova ofensiva de charme econômico, embora analistas de mercado ainda aguardem a implementação prática dessas políticas em licitações públicas e acesso a dados.

Perspectivas e os riscos da inação

A conclusão técnica das manifestações do governo chinês aponta para uma tentativa pragmática de blindar a economia doméstica contra o protecionismo ocidental por meio da interdependência. Ao abrir setores de serviços e alta tecnologia, Pequim espera que o custo de um eventual desacoplamento (decoupling) se torne proibitivo para as economias europeia e americana. Contudo, a eficácia dessa abertura dependerá da capacidade da China em gerenciar sua sobrecapacidade produtiva interna sem depender exclusivamente da exportação de excedentes, o que continua a ser o ponto de maior fricção com seus parceiros comerciais.

A longo prazo, o sucesso das promessas de Li Qiang será medido pela recuperação dos fluxos de IED e pela estabilização das relações com Washington após a resolução das crises geopolíticas no Oriente Médio. Sem uma melhora tangível no ambiente de negócios e uma redução real do superávit de bens, o discurso de Pequim corre o risco de ser visto apenas como uma manobra defensiva temporária, incapaz de impedir o avanço de novas barreiras tarifárias que ameaçam a arquitetura do comércio global estabelecida nas últimas décadas.



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