19/03/2026

Dólar abre em alta com escalada de ataques no Oriente Médio e disparada do petróleo; Ibovespa recua

Dólar abre em alta com escalada de ataques no Oriente Médio e disparada do petróleo; Ibovespa recua

Escalada de tensões no Oriente Médio e choque energético global pressionam mercados e moedas

A escalada bélica no Oriente Médio atingiu um novo patamar de gravidade nesta quinta-feira (19), desencadeando um choque nos mercados globais de energia e provocando uma fuga generalizada de investidores para ativos de segurança. No Brasil, o dólar comercial operava em alta de 0,09%, cotado a R$ 5,2503 por volta do meio-dia, enquanto o Ibovespa, principal índice da B3, registrava queda de 0,17%, situando-se nos 179.328 pontos. O movimento é reflexo direto da retaliação do Irã contra infraestruturas energéticas vinculadas aos Estados Unidos no Golfo Pérsico, em resposta a ataques anteriores atribuídos a Israel contra o campo de gás de South Pars, o maior do mundo.

Geopolítica da energia e o choque das commodities

O conflito, que entrou em uma fase de ataques diretos a ativos de infraestrutura estratégica, alterou drasticamente a percepção de risco no setor de commodities. O petróleo do tipo Brent, referência internacional, superou a marca de US$ 115 por barril, atingindo seu nível mais alto em mais de uma semana. A volatilidade estendeu-se ao mercado de gás natural na Europa, onde os preços futuros chegaram a registrar uma valorização intradiária de 35%, estabilizando-se posteriormente em uma alta de 16%.

A nova doutrina militar iraniana, que passou a mirar unidades de processamento de gás em países vizinhos como Catar e Arábia Saudita, impõe um desafio logístico e diplomático sem precedentes. Relatos indicam que o governo de Donald Trump, embora tenha apoiado a ofensiva inicial contra o território iraniano, busca agora mitigar a expansão dos ataques a fim de evitar um colapso no fornecimento global. A interrupção prolongada nessas regiões, vitais para o abastecimento europeu e asiático, poderia consolidar um cenário de inflação energética persistente, dificultando o trabalho de bancos centrais ao redor do globo.

Divergência monetária e o peso dos juros reais

No cenário doméstico, a conjuntura econômica ganha camadas adicionais de complexidade com as recentes decisões de política monetária. Na última quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, fixando-a em 14,75% ao ano. Foi o primeiro corte desde maio de 2024, mas a autoridade monetária adotou um tom de extrema cautela, evitando sinalizar novos afrouxamentos em virtude das incertezas geopolíticas e do potencial impacto inflacionário do petróleo.

Atualmente, o Brasil ocupa a segunda posição no ranking mundial de juros reais, com uma taxa de 9,51%, atrás apenas da Turquia (10,38%) e ligeiramente à frente da Rússia (9,41%). Essa posição reflete o esforço do Banco Central em manter a ancoragem das expectativas, especialmente em um momento em que o Federal Reserve (Fed), nos Estados Unidos, optou pela manutenção das taxas entre 3,50% e 3,75%. A manutenção de juros elevados nas economias centrais fortalece o dólar globalmente, exercendo pressão sobre moedas de mercados emergentes e limitando o espaço de manobra para políticas de estímulo no Brasil.

Resposta fiscal e instabilidade nos mercados globais

O governo brasileiro, em paralelo, tenta blindar a economia doméstica de um novo choque nos preços dos combustíveis em pleno ano eleitoral. A proposta em discussão visa zerar o ICMS sobre a importação de diesel até o fim de maio, com a União compensando metade das perdas de arrecadação dos estados. Analistas de mercado observam a medida com atenção, ponderando os benefícios de curto prazo na contenção do índice de preços ao consumidor frente aos riscos de deterioração das contas públicas e do cumprimento das metas fiscais.

O pessimismo não se restringe ao mercado brasileiro. Em Wall Street, os principais índices operam em terreno negativo: o Dow Jones recuava 0,76% e o S&P 500 perdia 0,65%. Na Europa, o impacto foi ainda mais severo, com o índice DAX, da Alemanha, e o FTSE 100, do Reino Unido, registrando quedas superiores a 2,4%. A postura do Banco da Inglaterra (BoE), que manteve as taxas de juros de forma unânime mas alertou para a possibilidade de novas altas caso a inflação decorrente da guerra se materialize, aprofundou a liquidação de títulos públicos.

A curto prazo, a estabilidade dos mercados financeiros dependerá da extensão da retaliação no Golfo Pérsico e da resiliência das cadeias de suprimento de energia. Sem indicadores macroeconômicos locais de peso no horizonte imediato, o investidor brasileiro permanece em posição defensiva, monitorando se o suporte fiscal ao diesel será suficiente para mitigar os efeitos de um petróleo estruturalmente mais caro e de um dólar que recupera seu papel de porto seguro global.



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