11/03/2026

Colaboradores de concessionária de energia são suspeitos de desviar mais de 2 km de cabos em Macapá

Colaboradores de concessionária de energia são suspeitos de desviar mais de 2 km de cabos em Macapá

Esquema de desvio de cabos em Macapá revela fragilidades na custódia de insumos de infraestrutura elétrica

Uma operação coordenada pela Polícia Civil do Amapá, realizada na última terça-feira (10), resultou na desarticulação de um esquema criminoso voltado ao desvio e comercialização ilegal de materiais de infraestrutura energética em Macapá. A ação, conduzida pela Delegacia de Narcóticos (Denarc), culminou na prisão em flagrante de três indivíduos — entre eles, dois colaboradores da concessionária CEA Equatorial — e na apreensão de mais de dois mil metros de cabos condutores de energia. O material estava armazenado em uma residência particular no bairro Perpétuo Socorro, que funcionava como entreposto logístico para o grupo.

A investigação, que contou com o suporte do setor de inteligência da própria concessionária, expõe uma modalidade de crime que transcende o furto comum, configurando-se como um ataque coordenado contra o patrimônio de um serviço essencial. De acordo com o delegado adjunto da Denarc, Kleyson Fernandes, a ofensiva policial foi desencadeada após o recebimento de denúncias anônimas que apontavam a movimentação atípica de materiais elétricos de grande porte em uma área residencial. Durante o monitoramento do local, os agentes flagraram o exato momento em que um dos funcionários da concessionária chegava ao imóvel para descarregar novos insumos subtraídos, consolidando a evidência do crime em curso.

Logística reversa e o mercado ilegal de insumos

O *modus operandi* identificado pelos investigadores revela uma estrutura de aproveitamento ilícito da cadeia de suprimentos da concessionária. Os funcionários envolvidos utilizavam-se do acesso facilitado aos depósitos e às frotas da empresa para desviar os rolos de cabos, que eram posteriormente estocados na residência de um terceiro comparsa. O proprietário do imóvel, também preso na operação, exercia a função de receptador e facilitador da guarda do material.

A análise preliminar aponta que o destino final desses cabos era o mercado paralelo de construção civil e obras particulares. "Este material possui um valor agregado considerável no mercado ilegal. O esquema não visava apenas a comercialização do cobre como sucata, mas sim a revenda do produto integral para utilização em projetos privados, subvertendo a finalidade pública e regulamentada do insumo", explicou o delegado Kleyson Fernandes. A prática evidencia um mercado clandestino aquecido, onde a demanda por materiais de baixo custo fomenta a corrupção interna em empresas de serviços públicos.

ANÁLISE DOS DESDOBRAMENTOS

Os dois colaboradores da CEA Equatorial foram autuados pelos crimes de furto qualificado e associação criminosa. Já o dono da residência responderá por receptação qualificada e também por associação criminosa. As penas somadas podem ultrapassar uma década de reclusão, refletindo a gravidade da conduta que compromete a integridade de ativos estratégicos do Estado.

Resiliência do sistema e governança corporativa

Apesar da magnitude do desvio — dois quilômetros de fiação representam uma extensão significativa para operações de manutenção urbana —, a CEA Equatorial informou, por meio de nota oficial, que o episódio não gerou interrupções no fornecimento de energia para os consumidores da capital amapaense. A empresa destacou que a identificação das irregularidades partiu de seus próprios mecanismos internos de controle, o que permitiu o acionamento célere das autoridades de segurança pública.

O episódio coloca em pauta a necessidade de reforço nos protocolos de *compliance* e fiscalização de estoque em concessionárias de serviços públicos. A facilidade com que grandes volumes de carga foram retirados dos domínios da empresa e transportados por vias públicas até um depósito clandestino sugere a existência de lacunas nos sistemas de monitoramento de frotas e de saída de materiais. Em resposta, a concessionária reiterou que permanece colaborando integralmente com as investigações e que acompanha o desdobramento jurídico do caso, buscando assegurar que medidas administrativas internas sejam tomadas para prevenir a reincidência de condutas similares entre seus quadros operacionais.

Perspectivas e desdobramentos jurídicos

O caso agora entra em uma nova fase investigativa, na qual a Polícia Civil busca identificar possíveis compradores e outros beneficiários do esquema. A apreensão do material e a prisão dos envolvidos são consideradas apenas o primeiro passo para mapear a extensão da rede de receptação em Macapá. Especialistas em segurança pública apontam que o furto de cabos e equipamentos elétricos tem se tornado um dos principais desafios para a manutenção da infraestrutura urbana no Brasil, gerando prejuízos milionários que, em última análise, acabam impactando o cálculo das tarifas pagas pela população.

Tecnicamente, o desdobramento jurídico deverá focar na comprovação da estabilidade e permanência da associação criminosa, o que pode agravar as sanções impostas aos acusados. Do ponto de vista da gestão de ativos, o incidente serve como um alerta para o setor elétrico sobre a importância da rastreabilidade total de componentes, desde a fabricação até a instalação final em campo. O rigor na apuração deste caso será determinante para desestimular a infiltração de práticas ilícitas em setores vitais da economia e da infraestrutura do estado do Amapá.



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