Morte de policial em São Paulo: Histórico de violência e laudos periciais colocam versão de oficial sob suspeita
A Polícia Civil de São Paulo e a Corregedoria da Polícia Militar aprofundam as investigações sobre a morte da soldada Gisele Alves Santana, de 32 anos, ocorrida em 18 de fevereiro no bairro do Brás. O caso, inicialmente registrado como suicídio com base no relato do marido da vítima, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, foi reclassificado como morte suspeita. A mudança no curso da apuração ocorre após a defesa da família da soldada apresentar registros policiais de ameaças anteriores e laudos periciais que indicam inconsistências na cena do crime, levantando a hipótese de feminicídio.
Nesta segunda-feira (16), o advogado Miguel Silva, que representa os familiares de Gisele, detalhou um histórico de comportamento agressivo e perseguição atribuído ao oficial. Segundo Silva, Rosa Neto possui boletins de ocorrência lavrados por ex-companheiras entre 2009 e 2022. Em um dos registros, uma ex-mulher obteve medida protetiva após relatar vigilância constante e ameaças de morte. O histórico estende-se ao ambiente profissional: em 2022, a Justiça reconheceu assédio moral cometido pelo então major contra quatro policiais femininas, que teriam sido transferidas de unidade como forma de punição disciplinar sem fundamentação legal.
Divergências periciais e a cena do crime
O núcleo da investigação técnica reside nas contradições entre o depoimento do tenente-coronel e os vestígios encontrados no apartamento do casal. Rosa Neto afirmou às autoridades que, após uma discussão em que solicitou a separação, dirigiu-se ao banho. Momentos depois, teria ouvido o disparo. No entanto, agentes que atenderam a ocorrência relataram que o oficial estava com o corpo seco no momento da chegada da polícia. Além disso, imagens de câmeras de segurança registraram a visita de um desembargador, amigo do coronel, ao local antes da realização da perícia inicial, período no qual o oficial teria, efetivamente, tomado banho.
Os laudos da Polícia Técnico-Científica trazem elementos que desafiam a tese de suicídio. O exame necroscópico identificou lesões no rosto e marcas de unhas no pescoço de Gisele, compatíveis com pressão digital. Embora o disparo tenha sido encostado na têmpora direita, a trajetória foi de baixo para cima, e a arma permanecia na mão da vítima — uma configuração considerada atípica por investigadores em casos de autoextermínio. Outro ponto de interrogação é o exame residuográfico, que resultou negativo para pólvora tanto nas mãos da soldada quanto nas do oficial. Adicionalmente, peritos encontraram manchas de sangue no banheiro, embora o corpo tenha sido localizado em outro cômodo.
Conflito de teses e desdobramentos jurídicos
A defesa de Rosa Neto, conduzida pelo advogado Eugênio Malavasi, mantém a posição de que a soldada tirou a própria vida. Malavasi afirma aguardar a conclusão dos laudos complementares e confia que a prova técnica corroborará a versão do oficial. A defesa pretende arrolar um médico do esporte como testemunha, alegando que o casal buscava uma rotina saudável e não apresentava sinais de ruptura iminente. O tenente-coronel participou voluntariamente da reconstituição do crime e solicitou novo depoimento após a juntada de todos os exames.
Por outro lado, o assistente de acusação, José Miguel da Silva Júnior, sustenta que o cenário aponta para um crime de mando ou execução direta. O ex-marido de Gisele, em depoimento recente, negou que ela apresentasse tendências suicidas e relatou que a convivência da filha do ex-casal com o atual marido da soldada era conflituosa. Para a família, o afastamento tardio do oficial — ocorrido apenas após a repercussão do óbito — reflete uma falha na supervisão do comando da Polícia Militar, dado o histórico de processos administrativos e judiciais que o oficial já enfrentava.
Perspectivas da investigação
O caso foi redistribuído para a Vara do Júri, instância competente para julgar crimes dolosos contra a vida, o que sinaliza que o Judiciário enxerga indícios de criminalidade além da hipótese de suicídio. A Polícia Civil aguarda agora os laudos toxicológicos e o laudo definitivo do local da morte para encerrar o inquérito. Paralelamente, o Inquérito Policial Militar (IPM) apura se houve prevaricação ou omissão por parte da corporação ao manter em funções de comando um oficial com sucessivas denúncias de assédio e violência doméstica.
O desfecho do caso Gisele Santana poderá estabelecer um precedente sobre o rigor nas corregedorias de forças de segurança em relação a perfis recorrentes de violência de gênero. A análise técnica final dos vestígios biológicos e da dinâmica do disparo será determinante para definir se o Ministério Público apresentará denúncia por feminicídio ou se a investigação será arquivada por falta de provas de autoria.
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