17/09/2026

Dólar abre em queda, após BC reduzir juros pela 5ª vez seguida e de olho no petróleo

Dólar abre em queda, após BC reduzir juros pela 5ª vez seguida e de olho no petróleo

Dólar opera em queda sob efeito de novo corte na Selic e recuo global dos preços do petróleo

O mercado de câmbio brasileiro iniciou as negociações desta quinta-feira (17) em terreno negativo, refletindo a calibração das expectativas dos investidores após decisões divergentes de política monetária no Brasil e nos Estados Unidos. O dólar comercial abriu a sessão com recuo de 0,38%, cotado a R$ 5,1318, em um movimento que absorve o quinto corte consecutivo na taxa Selic promovido pelo Banco Central (BC) e o arrefecimento nos preços internacionais do petróleo, fator que alivia as pressões inflacionárias globais no curto prazo.

A retração da moeda norte-americana ocorre em um cenário de complexidade macroeconômica. Enquanto o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica de juros brasileira em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano — o menor patamar em mais de doze meses —, o Federal Reserve (Fed), nos Estados Unidos, seguiu a trajetória oposta. O banco central americano elevou sua taxa de juros em 0,25 ponto percentual, situando-a no intervalo entre 3,75% e 4% ao ano, interrompendo um ciclo de estabilidade que durava cinco reuniões.

Divergência monetária e o diferencial de juros

A decisão do Copom, embora esperada pelo mercado financeiro, consolida uma estratégia de afrouxamento monetário fundamentada na desaceleração do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Em agosto, o índice registrou queda de 0,32%, a mais expressiva desde 2022, o que conferiu ao Banco Central espaço técnico para prosseguir com a redução do custo do crédito. Todavia, a convergência para patamares menores de juros no Brasil, simultânea à elevação das taxas nos EUA, estreita o diferencial de juros entre as duas economias, o que tradicionalmente tende a desestimular a entrada de capital estrangeiro voltado ao "carry trade".

Apesar dessa pressão teórica para a valorização do dólar, o real encontrou suporte no cenário externo nesta manhã. A commodity de referência internacional, o petróleo tipo Brent, operava em queda superior a 2,4%, negociado na casa dos US$ 103,20. O recuo foi impulsionado por informações de que a Arábia Saudita aumentou a oferta de óleo ao mercado através de Omã. O movimento saudita é visto por analistas como uma tentativa de mitigar os temores sobre a escassez de oferta global, o que tem efeito direto na redução das expectativas de inflação de custos, beneficiando moedas de países emergentes que dependem da estabilidade dos preços de insumos.

Tensões institucionais e o cenário político no radar

No plano doméstico, o otimismo econômico é moderado por uma crescente tensão institucional no Supremo Tribunal Federal (STF). O mercado monitora com cautela o desfecho do julgamento envolvendo o caso Moraes-Vorcaro, que marca a primeira vez na história da Corte em que se discute a abertura de investigação contra um de seus próprios magistrados. A sessão de terça-feira, caracterizada por embates ríspidos entre os ministros, terminou sem um veredito, prolongando um clima de incerteza jurídica que pode impactar a percepção de risco-país.

Analistas apontam que a instabilidade no Judiciário, somada à proximidade do calendário eleitoral, atua como um teto para as valorizações mais expressivas do real. Investidores tendem a adotar posturas mais defensivas quando os pilares da governança institucional apresentam sinais de atrito, o que pode gerar volatilidade nas cotações ao longo do dia, especialmente no fechamento das bolsas asiáticas e europeias, onde os temores de saída de capitais em direção aos títulos do Tesouro dos EUA já provocaram perdas em índices como o Hang Seng e o CSI300.

Perspectivas e implicações para o futuro próximo

O comportamento do dólar e do Ibovespa nas próximas sessões dependerá da capacidade do mercado em digerir os comunicados oficiais que acompanharam as decisões dos bancos centrais. O Federal Reserve, em sua nota técnica, destacou que a atividade econômica americana permanece sólida e resiliente, o que sugere que novas altas de juros não estão descartadas caso a inflação nos EUA volte a acelerar sob o impacto das tensões no Oriente Médio.

Para o Brasil, o desafio reside em manter a trajetória de queda de juros sem comprometer a estabilidade da moeda. A manutenção do superávit comercial e o controle das contas públicas surgem como variáveis críticas para sustentar a valorização do real em um momento de liquidez global mais restrita. Se o alívio nos preços do petróleo se provar duradouro e as tensões políticas internas arrefecerem, há espaço para que o dólar busque novos suportes abaixo de R$ 5,10; caso contrário, o fechamento do hiato de juros entre Brasil e EUA poderá empurrar a moeda novamente para patamares superiores, pressionando o custo das importações e a inflação futura.



16/09/2026

Diante da crise no Supremo, juristas avaliam como fica o julgamento de André Mendonça, marcado para 23 de setembro

Diante da crise no Supremo, juristas avaliam como fica o julgamento de André Mendonça, marcado para 23 de setembro

Impasse no Supremo: Crise institucional ameaça calendário de julgamentos e aprofunda divisão entre ministros

O Supremo Tribunal Federal (STF) enfrenta uma das crises institucionais mais severas de sua história recente, marcada por uma paralisia decisória que agora coloca sob incerteza o calendário da Corte. O impasse central gravita em torno do julgamento do ministro André Mendonça, agendado para o próximo dia 23 de setembro, cuja realização é questionada por juristas e magistrados após a sessão tumultuada da última terça-feira (15). O tribunal encontra-se dividido sobre o rito processual envolvendo relatórios da Polícia Federal que citam tanto Mendonça quanto o ministro Alexandre de Moraes, em um cenário de erosão da coesão interna e desgaste da imagem pública da instituição.

A indefinição sobre a sessão do dia 23 decorre da ausência de uma decisão terminativa sobre como os casos devem ser analisados. Na sessão de quarta-feira (16), o plenário exibiu uma normalidade aparente que contrastava com os embates e trocas de acusações do dia anterior. Enquanto o presidente da Corte, Edson Fachin, silenciou sobre os conflitos, e ministros como Alexandre de Moraes e Flávio Dino apresentaram atrasos ou participações remotas, os bastidores revelavam uma convicção crescente de que a solução para o conflito entre as alas do tribunal está cada vez mais distante.

A fragmentação do plenário e o pedido de vista

O cerne do conflito jurídico reside na divergência sobre se o relatório da PF contendo mensagens de Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, enviadas a Alexandre de Moraes, deve ser julgado em conjunto com o caso de André Mendonça, que trata de supostas fraudes no INSS e relações com a mesma instituição bancária. Na terça-feira, o tribunal rachou: os ministros Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e o próprio Moraes votaram pela análise conjunta — estratégia vista como favorável a Moraes, por diluir o foco sobre sua conduta individual. Em contrapartida, Edson Fachin, Luiz Fux, Cármen Lúcia e o próprio Mendonça votaram pelo desmembramento dos processos.

A decisão foi interrompida pelo pedido de vista do ministro Flávio Dino, que suspendeu o julgamento por até 90 dias. Sem uma definição sobre o rito — se os casos caminham juntos ou separados —, a viabilidade jurídica da sessão de 23 de setembro, focada exclusivamente em Mendonça, tornou-se incerta. Para o jurista Wálter Maierovitch, a manutenção da pauta é tecnicamente imprudente. "Não é conveniente, nem oportuno, porque existem questões pendentes de um processo suspenso. Manter essa sessão apenas aumentaria o volume de confusões e questões de ordem da mesma natureza", avalia o especialista.

O impasse do empate e a natureza do julgamento

Além da suspensão processual, o STF lida com um dilema regimental sobre como proceder em caso de empate nas votações futuras. Atualmente, o placar de 4 a 3 (com as ausências de Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli) levanta a dúvida se o presidente Fachin deve exercer o voto de qualidade para desempate ou se deve prevalecer o princípio do *in dubio pro reo*.

A ala alinhada a Alexandre de Moraes defende que, por se tratar de uma investigação que pode resultar em implicações criminais, o empate deve favorecer o investigado. Por outro lado, especialistas como o professor Oscar Vilhena, da FGV Direito SP, observam que, enquanto não houver maioria para derrubar o ato do relator, prevalece a condução atual de Fachin. Maierovitch reforça essa visão analítica, pontuando que o caso possui natureza administrativa, baseada na Lei Orgânica da Magistratura, e não penal. "Não há réu ou acusado. Trata-se de verificar a abertura de um processo administrativo disciplinar; portanto, o voto de desempate do presidente é o critério correto", afirma.

Riscos à imagem institucional e ao equilíbrio entre Poderes

O prolongamento da crise reflete-se na percepção social sobre a Corte. Em evento recente, a ministra Cármen Lúcia manifestou "lamento" pelo clima de descrença nas instituições e reforçou que a democracia depende da confiança do cidadão. A análise técnica de juristas aponta que o STF corre o risco de transferir a resolução de seus conflitos internos para o Poder Legislativo caso não encontre uma saída célere.

Gustavo Sampaio, professor de Direito Constitucional da Universidade Federal Fluminense (UFF), alerta que a postergação das decisões pode servir de combustível para pedidos de impeachment no Senado Federal. "A Suprema Corte tem a tarefa preliminar de demonstrar que é capaz de resolver internamente suas controvérsias. Se falhar, agravará a tensão entre os Poderes e comprometerá ainda mais a imagem do Judiciário", explica.

O cenário para a próxima semana permanece, portanto, sob intensa nebulosidade jurídica. A capacidade do STF de arbitrar suas próprias divergências será testada não apenas pelo cumprimento da agenda de julgamentos, mas pela sua habilidade em reafirmar a autoridade de seus ritos diante de uma composição visivelmente polarizada. O desfecho do caso Mendonça e a gestão do relatório envolvendo Moraes definirão se o tribunal conseguirá conter a crise ou se permitirá que ela transborde para uma instabilidade institucional de proporções imprevisíveis.



Fed eleva juros dos EUA pela 1ª vez em mais de 3 anos, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano

Fed eleva juros dos EUA pela 1ª vez em mais de 3 anos, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano

Federal Reserve Eleva Juros para Conter Inflação e Sinaliza Mudança de Rota sob Nova Liderança

WASHINGTON – Em uma decisão que marca uma inflexão na política monetária das principais economias do mundo, o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, anunciou nesta quarta-feira (16) um aumento de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros. Com o ajuste, a taxa federal de curto prazo passa a oscilar no intervalo entre 3,75% e 4% ao ano. Trata-se da primeira elevação do custo do crédito em solo americano desde julho de 2023, encerrando um ciclo de cinco reuniões consecutivas de estabilidade e enviando um sinal de alerta sobre a persistência das pressões inflacionárias globais.

A determinação do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) veio ao encontro das projeções majoritárias do mercado financeiro, mas o contexto em que ocorre é de elevada complexidade. O movimento é impulsionado por uma combinação de resiliência econômica interna e choques externos, notadamente a recente disparada nos preços do petróleo derivada do acirramento das tensões geopolíticas no Oriente Médio. Em comunicado oficial, a autoridade monetária enfatizou que a atividade econômica nos Estados Unidos continua a se expandir em "ritmo sólido", destacando que o consumo das famílias permanece robusto mesmo diante de um cenário de incertezas globais.

O Desafio Inflacionário e o Mercado de Trabalho

A decisão de elevar os juros reflete o esforço do Fed em cumprir seu mandato duplo: estabilidade de preços e pleno emprego. Embora o mercado de trabalho tenha demonstrado fôlego — com a criação de 162 mil postos de trabalho em agosto, superando significativamente as 21 mil vagas de julho —, a inflação continua a ser o principal obstáculo. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI) registrou uma alta acumulada de 3,4% nos últimos 12 meses até agosto, patamar ainda distante da meta de 2% perseguida pelo comitê.

A justificativa técnica do FOMC aponta que a produtividade e os investimentos das empresas seguem em trajetória de crescimento, o que impede uma desaceleração mais brusca da economia. Contudo, o colegiado deixou claro que a decisão de hoje visa acelerar o retorno da inflação ao centro da meta. Sob o comando de Kevin Warsh — indicado pelo presidente Donald Trump e empossado em maio deste ano —, o banco central parece adotar uma postura de vigilância estrita, mesmo enfrentando um histórico de atritos públicos entre a Casa Branca e a gestão anterior da instituição, liderada por Jerome Powell. Desde a posse de Trump em janeiro de 2025, esta foi a 14ª decisão do Fed, mas a primeira a retomar o viés de alta após um breve período de cortes pontuais.

Impactos Globais e a Pressão sobre Mercados Emergentes

A mudança na direção dos juros americanos reverbera imediatamente em escala global, com efeitos pronunciados sobre economias emergentes, como o Brasil. A manutenção de taxas elevadas nos Estados Unidos aumenta a atratividade dos títulos do Tesouro americano (Treasuries), considerados os ativos mais seguros do mundo. À medida que os rendimentos desses títulos sobem, ocorre um realinhamento do fluxo de capital global: investidores tendem a retirar recursos de mercados de maior risco para buscar refúgio no dólar, o que fortalece a moeda americana e pressiona as moedas locais.

No Brasil, esse fenômeno impõe um desafio adicional ao Banco Central (BC). A valorização do dólar encarece importações e insumos, gerando uma "inflação importada" que limita o espaço para flexibilizações monetárias. Embora a expectativa do mercado doméstico aponte para um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic nesta quarta-feira — reduzindo-a de 14% para 13,75% ao ano —, o movimento do Fed estreita a janela de manobra do Comitê de Política Monetária (Copom). Se o diferencial de juros entre Brasil e EUA encolher de forma acelerada, a fuga de capitais pode intensificar a desvalorização do Real, forçando o BC brasileiro a manter uma postura conservadora por um período mais prolongado.

Perspectivas e Equilíbrio de Riscos

O cenário que se desenha para o restante do ano é de cautela. O Fed sinalizou que continuará avaliando a "totalidade dos dados recebidos" antes de seus próximos passos, mantendo a porta aberta para novos ajustes caso a inflação não mostre sinais claros de convergência. A guerra tarifária promovida pela administração republicana e os conflitos geopolíticos permanecem como variáveis de difícil previsibilidade, capazes de gerar novos choques de oferta.

A conclusão técnica é que o Federal Reserve optou por um movimento preventivo. Ao elevar o custo do dinheiro agora, a instituição busca evitar que as expectativas inflacionárias se desancorem de vez, mesmo ao risco de um esfriamento no consumo doméstico a médio prazo. Para a economia global, o recado é inequívoco: o período de liquidez abundante e juros baixos no centro do capitalismo mundial não retornará enquanto a estabilidade de preços não for plenamente restabelecida. O equilíbrio entre evitar uma recessão e domar a carestia permanece como o fio da navalha sobre o qual caminham os formuladores de política monetária em Washington.