28/04/2026

Campanha por Messias contou com 'superpoder' de Mendonça, virada de Gilmar e jantar de Zanin

Campanha por Messias contou com 'superpoder' de Mendonça, virada de Gilmar e jantar de Zanin

Bastidores do Judiciário: A articulação de ministros do STF para consolidar Jorge Messias no Senado

BRASÍLIA — Em um movimento de coordenação política incomum pela intensidade e pela diversidade de atores envolvidos, integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) deflagraram, ao longo das últimas semanas, uma ofensiva diplomática junto ao Senado Federal para pavimentar a indicação de Jorge Messias à Corte. A estratégia, que culminou em um esforço concentrado em abril de 2026, uniu perfis ideológicos distintos do tribunal em torno de um objetivo comum: garantir uma tramitação célere e uma aprovação folgada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e no Plenário da Casa Revisora.

A campanha em favor do atual Advogado-Geral da União não se limitou ao apoio institucional do Poder Executivo, mas contou com três pilares fundamentais dentro da cúpula do Judiciário: a influência de André Mendonça sobre a ala conservadora e evangélica, a mudança de posicionamento estratégico de Gilmar Mendes e um jantar de alinhamento político oferecido pelo ministro Cristiano Zanin.

A diplomacia das togas e a influência na ala conservadora

Um dos pontos de inflexão na viabilização do nome de Messias foi a atuação do ministro André Mendonça. Conhecido por seu trânsito entre parlamentares da base conservadora e da bancada evangélica, Mendonça assumiu o papel de fiador técnico do indicado junto a setores que, a princípio, ofereceriam resistência ao nome do AGU por sua histórica ligação com o Partido dos Trabalhadores (PT). Analistas políticos de Brasília classificam a atuação de Mendonça como um "superpoder" de convencimento, pautado pela premissa de que Messias possui um perfil de diálogo institucional que transcende divisões partidárias.

Mendonça teria atuado diretamente para desmistificar resistências ideológicas, apresentando Jorge Messias como um quadro garantista e tecnicamente qualificado para manter a estabilidade entre os Poderes. Esse movimento foi essencial para neutralizar possíveis focos de oposição no Senado, garantindo que o debate sobre a indicação fosse deslocado do campo da "guerra cultural" para o campo da competência jurídica e do equilíbrio institucional.

A atuação de Mendonça é vista como um gesto de pragmatismo. Ao facilitar o caminho para Messias, o ministro não apenas reforça sua própria posição como interlocutor privilegiado entre o Judiciário e o Legislativo, mas também sinaliza um esforço de pacificação na composição futura da Corte, que tem enfrentado tensões crescentes com o Congresso Nacional nos últimos anos.

Reposicionamento de Gilmar Mendes e o simbolismo do jantar na casa de Zanin

Outro fator determinante para o fortalecimento da candidatura de Jorge Messias foi o que observadores chamam de "virada de Gilmar Mendes". Decano do Tribunal e uma das vozes mais influentes na política nacional, Mendes teria inicialmente demonstrado reservas ou, ao menos, uma postura de distanciamento em relação ao nome do AGU. Contudo, após uma série de diálogos internos, o decano passou a atuar como um dos principais articuladores em favor da indicação.

A mudança de posicionamento de Gilmar Mendes é interpretada como um movimento em prol da previsibilidade jurídica. Ao apoiar um nome com trânsito nas duas principais instituições do país — o Palácio do Planalto e o Judiciário —, Mendes busca evitar que a nova vaga no STF se torne palco de uma disputa política desgastante que poderia paralisar a pauta da Corte. A adesão do decano conferiu um selo de "viabilidade institucional" que Messias ainda precisava conquistar perante os quadros mais experientes do Senado.

Complementando a estratégia, o ministro Cristiano Zanin desempenhou o papel de anfitrião em um jantar que reuniu senadores de diversos espectros políticos. O encontro, realizado sob reserva em sua residência, serviu como uma espécie de "soft launch" da candidatura de Messias. No ambiente informal, o indicado pôde estreitar laços com parlamentares e dirimir dúvidas sobre sua futura atuação no STF. O gesto de Zanin, o primeiro indicado do atual mandato presidencial, foi lido como um sinal de coesão interna do Tribunal em torno do nome escolhido, reforçando a mensagem de que a indicação possui harmonia com o desenho atual do colegiado.

Implicações para o equilíbrio entre Poderes

O sucesso dessa articulação multissetorial aponta para uma mudança na dinâmica de indicações ao Supremo Tribunal Federal. A antecipação do tribunal em atuar ativamente na política partidária do Senado sugere que a aprovação de novos ministros deixou de ser uma prerrogativa exclusiva do Executivo para se tornar um processo de construção de consenso dentro do próprio Judiciário.

Tecnicamente, a provável confirmação de Jorge Messias deve consolidar uma ala mais moderada e garantista no STF, focada na preservação das competências institucionais. As consequências futuras dessa movimentação indicam uma tentativa de redução do atrito entre o Judiciário e o Legislativo, uma vez que o processo de escolha foi mediado por figuras que já possuem diálogo estabelecido com o Congresso. Resta saber se essa coesão interna da Corte resistirá aos desafios de julgamentos de alta sensibilidade política que aguardam o tribunal nos próximos meses. A estratégia de Mendonça, Mendes e Zanin, contudo, já logrou êxito em um ponto: transformou uma indicação potencialmente conflituosa em um processo de convergência política.



O Brasil é a 'bola da vez' na economia?

O Brasil é a 'bola da vez' na economia?

Entre Geopolítica e Commodities: O Retorno do Brasil ao Centro do Radar Global de Investimentos

A reconfiguração das cadeias globais de valor e a escalada das tensões no Oriente Médio posicionaram o Brasil, no primeiro semestre de 2026, como um dos destinos prioritários para o capital estrangeiro entre os mercados emergentes. O movimento, sustentado pela alta nos preços do petróleo e pela manutenção de taxas de juros atrativas, levou o Fundo Monetário Internacional (FMI) a elevar a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 1,6% para 1,9%. Em Washington D.C., durante as reuniões de primavera do FMI e do Banco Mundial, o país foi recorrentemente descrito por analistas de instituições como Bank of America e Goldman Sachs como o "próximo ouro" das economias em desenvolvimento, refletindo uma rara combinação de autossuficiência energética e isolamento relativo a choques geopolíticos diretos.

O triunfo energético e a resiliência das commodities

O principal catalisador deste otimismo é o papel do Brasil como exportador líquido de energia. Com o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã resultando no fechamento intermitente do Estreito de Ormuz, o preço do barril de petróleo registrou uma valorização superior a 30% desde fevereiro de 2026. Enquanto economias importadoras enfrentam pressões inflacionárias e desvalorização cambial, o Brasil beneficia-se da melhoria nos "termos de troca". Segundo o Panorama Econômico Mundial do FMI, a guerra deverá gerar um efeito líquido positivo de 0,2 ponto percentual no crescimento brasileiro este ano.

A transição estrutural consolidada na última década é o que lastreia essa resiliência. Desde 2017, o país reverteu sua posição de importador para se tornar o sétimo maior exportador mundial de petróleo bruto. Em 2024 e 2025, o combustível superou a soja como o principal item da pauta exportadora nacional. Para Martín Castellano, chefe de pesquisa para a América Latina do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), o ingresso de divisas é direto: cada aumento de US$ 10 no preço do barril representa um aporte adicional de aproximadamente US$ 4 bilhões nas contas externas brasileiras, o equivalente a 0,2% do PIB. Além disso, a matriz elétrica predominantemente renovável atua como um fator atenuante contra choques de custos na produção industrial doméstica.

Fluxo de capital e a "tempestade perfeita" para o Real

No mercado financeiro, a percepção de risco favorável traduziu-se em números robustos. Até abril de 2026, o ingresso de capital estrangeiro na Bolsa de Valores (B3) totalizou R$ 64,42 bilhões, superando o dobro do volume registrado em todo o ano de 2025. Esse fluxo é impulsionado pelo que Robin Brooks, pesquisador da Brookings Institution, define como a "tempestade perfeita" para a moeda brasileira. A combinação de exportações em alta e taxas de juros elevadas — com a Selic atualmente fixada em 14,75% ao ano — fortaleceu o Real, que acumulou valorização de 10,4% frente ao dólar no primeiro quadrimestre, a maior entre as principais divisas globais.

Embora o Banco Central tenha iniciado um ciclo gradual de cortes em março, a expectativa de analistas do Bank of America é que a autoridade monetária mantenha o rigor para conter os efeitos secundários da alta do petróleo sobre a inflação. Esse cenário de "juros altos por mais tempo" favorece operações de *carry trade*, onde investidores buscam retornos em moedas de rendimento elevado, consolidando o Brasil como um porto seguro em meio à volatilidade dos mercados centrais. Contudo, o mercado acionário experimentou turbulências recentes, com o Ibovespa recuando de máximas históricas em um movimento lido por analistas do Santander como um ajuste técnico de fluxo global, e não como uma deterioração dos fundamentos internos.

Vulnerabilidades fiscais e o horizonte político

Apesar do otimismo externo, o cenário apresenta riscos estruturais que impedem uma euforia desmedida. A política fiscal permanece como o "calcanhar de Aquiles" da economia brasileira. A dificuldade em estabelecer uma disciplina de gastos e as constantes alterações nas metas fiscais geram cautela quanto à sustentabilidade do crescimento a longo prazo. No campo político, a proximidade das eleições presidenciais de outubro introduz um componente de incerteza. A pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro, por exemplo, gerou volatilidade momentânea na Bolsa, evidenciando a sensibilidade do mercado a possíveis guinadas na condução da política econômica.

Adicionalmente, o setor produtivo enfrenta ameaças na cadeia de suprimentos. O Brasil importa cerca de um terço de seus fertilizantes nitrogenados do Oriente Médio, e o Irã é o destino de 20% das exportações brasileiras de milho. Uma interrupção prolongada no comércio regional poderia elevar o custo dos alimentos e neutralizar os ganhos obtidos com o petróleo. Portanto, embora o Brasil figure como a "bola da vez", a manutenção desse status dependerá da capacidade do governo em navegar entre as oportunidades geopolíticas e a resolução de gargalos internos, como a limitada capacidade de refino e a dependência externa de insumos agrícolas fundamentais.



À espera de Messias

À espera de Messias

A Sabatina de Jorge Messias: O Exame de um Nome e as Engrenagens do Poder no Senado

BRASÍLIA – O Senado Federal prepara-se para realizar, nesta quarta-feira (29), a sabatina de Jorge Messias, atual Advogado-Geral da União, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assumir a vaga em aberto no Supremo Tribunal Federal (STF). O rito, que se inicia na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), representa mais do que o cumprimento de uma formalidade constitucional; trata-se de um teste de força política para o Palácio do Planalto e de um momento de definição para a composição da mais alta corte do país.

O escrutínio de Messias ocorre em um ambiente de intensa articulação de bastidores. Nos últimos dias, o governo intensificou os esforços para consolidar uma margem segura de votos, focando especialmente no diálogo com o senador Davi Alcolumbre (União-AP), presidente da CCJ e peça-chave no tabuleiro legislativo. A busca por um gesto público de apoio por parte de Alcolumbre é vista por analistas como o passo final para destravar resistências e garantir que o nome do indicado avance ao plenário com robustez política.

O Capital Político e a Tradição do Consentimento

Historicamente, o Senado Federal tem exercido o seu papel de revisor das indicações presidenciais com uma tendência à confirmação. Desde o início da República, o princípio da deferência ao Executivo em escolhas para o Judiciário tem sido a norma, com raras exceções. O caso mais emblemático de rejeição remonta ao final do século XIX, sob o governo de Floriano Peixoto, quando cinco nomes foram barrados pelos senadores. Desde então, a dinâmica de negociação prévia entre a Presidência e o Legislativo tem funcionado como um filtro que evita derrotas institucionais ao Executivo.

No caso de Jorge Messias, o governo aposta em sua trajetória na Advocacia-Geral da União e em sua interlocução direta com os tribunais superiores para aplacar críticas sobre o viés político da escolha. A estratégia do Planalto consiste em apresentar o candidato como um nome de perfil técnico-institucional, capaz de assegurar a harmonia entre os Poderes. Entretanto, o processo de convencimento esbarra na polarização que permeia o Congresso Nacional, onde a oposição monitora de perto as movimentações governistas em busca de concessões em pautas legislativas paralelas.

A atuação de Davi Alcolumbre é monitorada com atenção. O senador, que possui aspirações à presidência do Senado em 2025, utiliza o controle do cronograma da CCJ como um instrumento de negociação política. A insistência do governo em um novo encontro entre o parlamentar e o indicado, acompanhado de um sinal explícito de suporte, visa dissipar quaisquer incertezas remanescentes no bloco parlamentar que Alcolumbre lidera.

Equilíbrio Institucional e Desafios Jurisprudenciais

A chegada de Jorge Messias ao STF, caso confirmada, ocorre em um momento em que a Corte se encontra no epicentro de debates cruciais para a estabilidade democrática e econômica do país. A sabatina na CCJ deverá abordar temas sensíveis, como o alcance das decisões monocráticas, a competência do tribunal em questões de natureza eminentemente política e o papel do STF na revisão de atos administrativos.

Messias deverá ser questionado sobre sua visão acerca da separação dos Poderes e a autocontenção judicial. A expectativa é que o indicado adote uma postura de cautela, mantendo o tom técnico que marcou sua gestão na AGU. Para o governo, a entrada de Messias na Corte representa a consolidação de um perfil jurídico alinhado à defesa da governabilidade e à interpretação constitucional que prioriza as prerrogativas do Executivo em áreas estratégicas.

Por outro lado, senadores da ala conservadora e da oposição buscam extrair compromissos do indicado em relação a temas de costumes e à manutenção de marcos legais aprovados pelo Legislativo. A capacidade de Messias de transitar por esses questionamentos sem alienar apoios cruciais será determinante para o resultado da votação secreta que se seguirá à sabatina.

Perspectivas e Consequências para a Corte

A eventual confirmação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal trará implicações de longo prazo para a jurisprudência nacional. Com uma carreira pautada pela defesa do Estado e pela gestão de conflitos jurídicos complexos no âmbito do governo federal, Messias tende a fortalecer a ala garantista da Corte, mantendo um equilíbrio de forças em julgamentos que envolvem a administração pública e direitos fundamentais.

O desfecho da votação no plenário do Senado, previsto para ocorrer logo após a deliberação na CCJ, servirá como um termômetro da relação entre o presidente Lula e o Congresso Nacional no segundo biênio do mandato. Uma aprovação por ampla margem sinalizaria uma base aliada coesa e um Executivo com capacidade de manobra institucional. Por outro lado, qualquer dificuldade adicional no rito legislativo evidenciaria as fragilidades de uma coalizão que exige constantes concessões para manter sua estabilidade.

Independente do resultado numérico, a sabatina desta quarta-feira reafirma o caráter político-jurídico do processo de seleção para a cúpula do Judiciário brasileiro. A escolha do sucessor na vaga aberta no STF não é apenas uma decisão sobre nomes, mas sobre a direção que o país tomará na interpretação de sua Lei Maior nos próximos anos.