STF determina afastamento do prefeito de Coari e investiga esquema de repasses financeiros ilícitos
Por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o prefeito de Coari (AM), Adail Pinheiro (Republicanos), foi afastado de suas funções públicas nesta quarta-feira (16). A medida, válida inicialmente por 90 dias, integra uma robusta operação da Polícia Federal (PF) que apura suspeitas de desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro. Além do afastamento cautelar, agentes federais cumpriram mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao prefeito e ao seu filho, o deputado federal Adail Filho (MDB), em um desdobramento que amplia a pressão jurídica sobre uma das linhagens políticas mais influentes do interior do Amazonas.
A ofensiva da Polícia Federal é o resultado de um desdobramento investigativo iniciado após uma prisão em flagrante ocorrida no Aeroporto de Brasília. Na ocasião, os empresários Cesar de Jesus Gloria Albuquerque, Erick Pinto Saraiva e Wagner Santos Moutinho foram detidos ao desembarcar de um voo vindo de Manaus portando mais de R$ 1,25 milhão em espécie. A ausência de comprovação da origem lícita do montante e as circunstâncias do transporte de valores despertaram o alerta das autoridades de controle, desencadeando um inquérito que, sob autorização judicial, avançou sobre o sigilo de dados e comunicações dos envolvidos.
A conexão financeira e a análise de dispositivos eletrônicos
O avanço das investigações sobre o núcleo político da prefeitura de Coari consolidou-se após a análise pericial de documentos e dispositivos eletrônicos apreendidos com os empresários. Segundo o despacho proferido pelo ministro Alexandre de Moraes, o material coletado revelou indícios de uma rede de repasses financeiros estruturada. Empresas vinculadas aos investigados teriam realizado transferências e pagamentos em benefício direto de Adail Pinheiro e de seu filho, o deputado Adail Filho.
A decisão judicial destaca que o conjunto probatório aponta para a existência de uma engrenagem financeira onde o erário público municipal seria o ponto de origem de recursos que, posteriormente, retornariam aos agentes políticos por meio de intermediários. Em junho de 2026, diante da complexidade dos fatos e do volume de dados a serem processados, a Polícia Federal solicitou a prorrogação das investigações por mais 60 dias. O pedido foi acatado por Moraes, que sublinhou a necessidade de concluir diligências pendentes e mapear a extensão total do suposto esquema, que envolve múltiplas pessoas físicas e jurídicas.
Para os investigadores, o afastamento de Adail Pinheiro do cargo de prefeito é uma medida necessária para garantir a instrução criminal e interromper possíveis fluxos de capital ilícito que poderiam persistir caso o gestor permanecesse no controle administrativo da máquina pública.
Estratégia de defesa e os limites da imunidade parlamentar
Em resposta à operação, o advogado Fabrício de Melo Parente, que representa Adail Pinheiro e Adail Filho, manifestou que os clientes receberam as ordens judiciais com surpresa. A defesa classificou o afastamento do prefeito como "desnecessário", argumentando que não há fundamentos fáticos que justifiquem a interrupção de um mandato eletivo antes do encerramento das investigações. Parente ressaltou que, até o presente momento, o prefeito não figura como réu em processo judicial derivado desta operação, nem foi alvo de denúncia formal pelo Ministério Público.
No que tange ao deputado federal Adail Filho, a defesa confirmou que ele foi alvo de busca e apreensão, mas enfatizou que as medidas não afetam o exercício de seu mandato parlamentar na Câmara dos Deputados. A estratégia jurídica da família Pinheiro agora foca na obtenção de acesso integral ao conteúdo do inquérito e das provas colhidas para fundamentar recursos junto ao STF, visando a recondução do prefeito ao cargo. Até o fechamento desta reportagem, as defesas dos empresários presos no Aeroporto de Brasília não haviam se manifestado publicamente sobre as novas fases da investigação.
Implicações políticas e o rigor do controle judicial
O afastamento de Adail Pinheiro representa um novo capítulo na conturbada história política de Coari, município estratégico devido à sua relevante arrecadação de royalties de petróleo e gás. A intervenção direta do Supremo Tribunal Federal em uma gestão municipal sinaliza o rigor das autoridades de controle em relação a crimes que envolvem a transposição de fronteiras estaduais e o uso de parlamentares federais, o que justifica a competência da corte máxima do país.
Do ponto de vista administrativo, a vacância temporária do cargo de prefeito impõe um cenário de incerteza para a governança local, enquanto a Polícia Federal analisa o material apreendido nesta quarta-feira para confirmar se os repasses identificados nos aparelhos eletrônicos correspondem a contrapartidas por contratos públicos. O desfecho desta investigação poderá não apenas redefinir a composição política da região, mas também servir como precedente sobre os limites da cautelaridade em investigações de crimes contra a administração pública no Brasil. O prazo de 90 dias de afastamento será o termômetro para a viabilidade política de Adail Pinheiro frente às graves suspeitas que agora pesam sobre sua gestão.
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